as antigas damas japonesas, Ana Hatherly


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As antigas damas japonesas
Distraidamente
Agitavam seus leques
No solitário mundo dos biombos

A distracção
Porém
É uma forma superior de ocultação
E
Na aridez
Do seu íntimo domado
O rugido da raiva
Estava contido
Artisticamente comprimido
No extravagante cinto
Que traziam
Atado nas costas

Tocavam
Dançavam
Serviam o chá de joelhos
Num secular sequestro

Mas às vezes
Num intervalo do desvelo
Da honra e do pudor
Descobriam
O esquisito sabor
Que tem o crime.
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in Sibila: Revista de Poesia e Cultura
Ano 3, nº 5, 2003

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Rão Kyao & Lu Yanan



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na morte do camarada Mao, Manuel António Pina

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De onde vêm as lágrimas justas, o cansaço
de Wang Hai-jung durante as reuniões de domingo ?
A guerra gera as coisas boas,
a pura paz espera os soldados.
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As lágrimas caem do céu ? Não.
Quando acaba a contradição entram em casa a morte,
as flores, as lágrimas das mulheres.
Aquele que morreu não o saberá nunca.
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A morte é propriedade dos vivos,
aquele que morreu já não vive nem está morto.
O processo antigo está terminado e inicia-se o novo:
movimento mecânico, som, luz, calor, electricidade,
decomposição, combinação, etc.
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9 de Setembro de 1976
Manuel António Pina, Algo parecido com isto, da mesma substância [Poesias 1974-1991], Ed. Afrontamento, Porto, 1992.


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Wang Haijung é uma sobrinha de Mao, a qual, recém-formada, acedeu a altos cargos do Estado (vice-ministra dos Negócios Estrangeiros).

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" É de notar que foi possivelmente em Portugal, país com paradoxais e muito antigas ligações à China, que se escreveu o melhor - outra elegia ? - poema à morte de Mao. É de Manuel António Pina e nele há até premonição, dentro da mecânica e do movimento da memória, dos sucessos de vários apaniguados de Mao. "
Gil de Carvalho, "Mao: duas ou três coisas" in Revista Ler, Inverno 1994.
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Apesar do outono
os ouriços das castanhas permanecem verdes
muito tempo ainda



A pequena lagarta
vê passar o outono
sem pressa de se tornar borboleta


 
Admirável aquele
cuja vida é um contínuo 
relâmpago



Sob o mesmo tecto
dormiram as prostitutas
a lua e o trevo



Num atalho da montanha
sorrindo
uma violeta



Extingue-se o dia
mas não o canto
da cotovia



Acabou-se o óleo na lamparina
Mas ... eis a lua
que entra pela janela










Matsuo Bashô (Versões de Jorge de Sousa Braga), O Gosto Solitário do Orvalho, Assírio & Alvim, Lisboa, 1986

tisanas, Ana Hatherly

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323
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Nova Delhi. Estou no jardim do hotel. É de manhã e o sol acaricia tudo. O jardim está cheio de pássaros. Inquisitivos voam à minha volta como se me farejassem. Tornando-se mais audaciosos começam a passar sobre a minha cabeça em rapidíssimos voos rasantes. Contraio-me. Lembro-me daquela pintura surrealista que representa uma criança atacada por um rouxinol.


324
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É a Índia. Passei a noite com agudas dores de estômago. De manhã mando vir ao quarto um chá com limão. Vendo-me palidíssima o criado pergunta o que tenho. Quando eu acabo de explicar a minha indisposição ele diz no seu inglês difícil : Madame much need big bunch of roses.




325
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Panjim. Caminho lentamente olhando as tabuletas com nomes portugueses. Resolvo comprar umas sandálias a um dos vendedores ambulantes que enchem os passeios. Quando descalço o meu sapato azul o meu pé surge belíssimo duma brancura de alabastro. Ao calçar-me a sandália com as suas mãos escuríssimas o vendedor estremece dos pés à cabeça.




326
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Passeamos à noite à beira do Mandovi. Está um calor húmido. Paira no ar um pungente cheiro a urina e mesmo a água do rio cheira a esgoto quente. Mas nenhum de nós fala disso. De repente por sobre as cabeças da copa de uma árvore sai aos gritos um enorme bando de corvos. Surpreendidos assustamo-nos. Então eu digo : noutro tempo isto seria um presságio.




327
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Passeamos à noite à beira do Mandovi por entre detritos e odores de podridão. A água é negra e de tão quieta torna-se indistinta. Os homens vão contando anedotas. Não aguento mais. De repente paro e digo : por favor, olhem para esta árvore imensa. De facto é um espanto, dizem. Depois ficam calados. Então o mais velho do grupo diz : é melhor irmos para o hotel.


328
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À beira do rio Mandovi. É de noite. Estamos sufocados pelo choque cultural que é o confronto físico com a Índia. De repente, num cais abandonado, deparamos com uma mulher envolta em seu sari, escura, estática. Fita-nos sorrindo e tão intensamente, tão insistentemente que ficamos perturbados. Então alguém diz: deve ser a escrava de Camões.


332
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Bombaim. A caminho do aeroporto internacional a humanidade é uma lama seca envolvida em trapos ao longo da estrada. A vida é uma lepra. Mas por entre a lama humana, miraculosamente, as mulheres deslizam como intocadas flores protegidas pela magia da cor dos seus saris. Quando transportam vasilhas ao ombro são cariátides arrancadas ao templo da cultura.


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Ana Hatherly, 351 Tisanas, Lisboa, Quimera, 1997, pp.120-124.
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o murmúrio do mundo - a Índia revisitada, Almeida Faria

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Prefácio de Eduardo Lourenço, primeiras páginas do livro e desenhos de Bárbara Assis Pacheco   aqui.






















Textos sobre o livro:

António Rego Chaves, Meio século depois
Gustavo Rubim, Outra Índia

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Bombaím, Rão Kyao

mais sobre / more about Rão Kyao aqui/ here

Um Problema de Tradução, Alexandra Pinto Rebelo

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          Passei por um supermercado chinês, em Lisboa. Como nunca tinha estado em tal tipo de estabelecimento, entrei. Pensei que as minhas refeições frequentes em restaurantes chineses, ao longo de vários anos, seriam um posto fronteiriço seguro entre mim e aquele distante universo gastronómico. Bastou olhar para a primeira escada de prateleiras para compreender que não seria assim. Ainda passei bastantes minutos na loja, olhando com atenção, observando os desenhos indicativos das embalagens com cuidado, bem como as manchas de tinta de milhares de caracteres. Nem com todo o meu cuidado e boa vontade consegui traduzir a maior parte das coisas vistas para os meus conceitos de matérias comestíveis.

          Não há melhor experiência do que entrar noutra cultura para sentirmos que a maior parte das coisas nos são estranhas. O outro serve-nos sempre como ponto de referência para aquilo que nós não somos. Como não o compreendemos, surge-nos como um pequeno conjunto de estilhaços de caos, uma espécie de não-descrição, que em certa medida nos vai sugerindo aquilo que somos através do que não somos.


          Poucos são aqueles que conseguem estabelecer este distanciamento na sua própria cultura. Terá sempre de ser um distanciamento forçado. Olhar para um galão é conhecê-lo. Não conseguimos parar toda a informação que, mesmo sendo silenciosa, nos percorre. Conseguir construir uma barreira entre o nosso conceito de galão e o galão ele mesmo é o princípio dos sábios. No fundo, importa conhecer as coisas como elas são, e não discursos sobre as coisas que decoramos desde crianças, discursos que acabam por moldar a nossa percepção. É muito difícil tornar estranho o que nos é familiar, por uma questão de princípio. Viver um paradoxo não entra na nossa lista habitual de coisas que somos. Assim, passamos a vida a fazer cumprimentos silenciosos, com discursos que são interpretações de outros, a coisas que se nos tornaram familiares tão só por termos decorado e compreendido esses discursos. Ou seja, aquilo que nós somos, aquilo em que nos transformam sempre, é um conjunto de teias de discursos sobre os objectos, sobre os fenómenos, interpretações marchetadas em palavras mesmo sendo reconhecivelmente curtas ou compridas demais. Tornamo-nos os discursos e pensamos que com eles nos tornamos nas coisas, conhecendo-as como nossas, conhecendo-as como se as fôssemos.


          Por isso, só os sábios podem quebrar discursos, ficando sem nada. (Falo de sábios, enquanto termo genérico, propositadamente). Os sábios, para serem sábios, sabem que nada têm, por isso nada perdem.


    No meio deste texto, vou cometer uma heresia. Heresia, mesmo, não falo metaforicamente. Quem for mais sensível a estes assuntos, deverá parar de ler por agora. Pensei eu se os anjos também não terão olhares que são eles mesmos interpretações sobre as coisas. Coisas superiores às nossas, presumo, desconhecidas dos humanos, talvez, mas não terão os anjos discursos decorados, teias de interpretações sobre os seus fenómenos e os nossos? Será que aquilo que nos vêm transmitindo são as coisas em si mesmas? Parece-me que, das religiões do Livro, só o Islão terá resolvido este problema em termos filosóficos. O Corão existe desde o princípio dos tempos, não sendo inspirado mas sim revelado. É uma coisa per si, identificável com o Cristo da cultura cristã. Islão significa então submissão a essa revelação, revelação que é a coisa em si transformada em texto recitável.


          Voltemos novamente ao oriente. A palavra sânscrita Tathatâ, tem um sentido próximo da nossa palavra “realidade”. Designa o Absoluto, a Verdadeira Natureza de todas as coisas. O termo Tat é a raiz da palavra. Ninguém sabe a sua origem nem o seu primeiro significado A hipótese mais forte é representar o som que os bebés fazem quando apontam uma coisa. O bebé é aquele que está mais próximo do início, não tendo ainda apreendido, ou decorado, discursos sobre os objectos ou fenómenos para os quais aponta. Dessa forma, esse som inicial será aquele que com maior rigor descreve a coisa em si. Se pensarmos bem nisto, tudo, então, é Tat. Nós próprios somos Tat, bem como todas as nossas referências. Tudo o que é o Outro se dilui nesta pequena palavra levando-nos também a nós para um caldo primordial não-conceptual. Um dos nomes de Buda é Tathâgata, aquele que chegou à Iluminação pela via da Verdade. E a verdade, se olharem bem para a raiz, é Tat, nada mais do que isso. 
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Texto publicado originalmente aqui e depois aqui.


Rosário Marques




Do álbum Índia, aqui.
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nada tenho de meu

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" O realizador português Miguel Gonçalves Mendes e os escritores brasileiros Tatiana Salem Levy e João Paulo Cuenca viajaram até ao Extremo Oriente para uma troca de experiências com artistas e pensadores de Macau, Hong Kong, Vietname, Cambodja e Tailândia. Desse contacto, que surgiu depois dos três autores terem sido convidados a estar presentes no Festival Literário de Macau - Rota das Letras, nascerá a série de vídeos Nada Tenho de Meu, descrita como "uma mistura de caderno de viagens e ficção" que o Público Online começará a publicar a partir desta quinta-feira. "

Episódio 1, 23.02.2012

Episódio 2, 01.03.2012
Episódio 3, 08.03.2012
Episódio 4, 15.03.2012

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Keiichi Tahara

Keiichi Tahara, A night in Lisbon, 1988









                                  Keiichi Tahara : Light Scape











Casa de Goa, Lisboa
















Na realidade, estivemos a comer num velho baluarte do século XVII, restaurado para instalar um centro cultural goês, onde acontecem exposições, conferências e espectáculos de variada tonalidade. Sito em Alcântara, que em árabe significa “ponte”, na freguesia dos Prazeres - topónimos sem dúvida muito auspiciosos para um primeiro almoço do ano.

Começámos por quebrar pedaços das redondas e finas folhas estaladiças que se chamam paparis. Não têm nada que ver com as dos restaurantes indianos em geral, porque são extremosamente condimentadas com malagueta e outras especiarias.

Pedimos vinho tinto, porque é Inverno e aconchega mais, até as memórias dos melhores e piores momentos do ano que fomos passando em revista. A sugestão do Três Bagos foi  bem acolhida pelos nossos palatos: um Douro de final duradouro, aveludado, aroma elegante, cálida cor cereja que fica lindamente aguarelada nos guardanapos de pano. O rótulo, muito zen, ajustou-se às saudações místicas e aos desejos para o novo ano. 

A música ambiente, goesa e em decibéis amáveis, correspondia ao sossego que desejávamos. É verdade que a certa altura alguém a mudou para algo que quase transformou o lugar em rave party. Susto. Também ali iriam enquinar a sereníssima atitude convivial à mesa com músicas extremas e estrangeiras (que não goesas, queremos dizer...) ? - Estávamos para reclamar, quando mão palaciana voltou a pôr decibéis e melodias nos conformes. Outro utente antecipara-se de susto ou alguém do pessoal sensibilizarara-se. Não ficámos surpreendidas. De outras vezes, em dias "normais", já nos apercebêramos de que uma das belas artes deste lugar era o gentilíssimo receber, sereno e nunca invadente de uma linda mulher.

Entretanto vieram os bojés.
Farinha de grão, gengibre em pó, coentros picados, açafrão das índias, cominhos, piri-piri são alguns dos sabores com que começámos 2012. Dentro dos bojés, que lembrariam peixinhos da horta não fossem tão alegremente despenteados como aranhiços de boa fortuna. Coloridas e saborosas estavam também as chamuças de camarão.

Escolhemos Leitão à Velha Goa e pulau de carne com arroz de açafrão, entre as muitas insinuantes especialidades que o cardápio sugere.
O primeiro, embebido em molho de especiarias aos molhos, derretia-se na boca. O arroz pulau, feito a partir de um refogado de cebola, passas, açafrão, cravos-da-índia e amêndoas, com a sua forte cor amarela inspirou-nos a fé num novo ano cheio de bons encontros e de boas novas. A acompanhá-lo vinha um guisado de vitela, de sabor intenso e cor escura. No molho entressaboreámos travos de tamarindo, cominhos e gengibre.
No final, a melhor bebinka de Lisboa.



1.1. 2012
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imagem ( e outro testemunho, num excelente blogue): Pedro Cruz Gomes, daqui.

Tibete, Joaquim Magalhães de Castro

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 HIMALAIAS - A VIAGEM DOS JESUÍTAS PORTUGUESES

" Uma série documental de quatro episódios que traduz uma aventura de milhares de quilómetros através de uma das mais espectaculares e deslumbrantes paisagens do planeta. Terra de mosteiros, alta montanha, lagos de água cristalina e rotas de peregrinação lendárias, o Tibete continua a ser o mais misterioso e aliciante recanto dos Himalaias. Joaquim Magalhães de Castro, viajante e investigador da História da Expansão Portuguesa, refaz as rotas de um grupo de intrépidos jesuítas portugueses do início do século XVII, pioneiros nos Himalaias, convidando-nos a conhecer um importante capítulo do nosso passado colectivo: a exploração do interior do continente asiático, associada à ancestral busca do mítico reino do Cataio, onde se acreditava existirem cristandades perdidas. Em 1624, após uma duríssima travessia através dos «desertos de neve» que separam a Índia do Tibete, o padre António de Andrade chega a Tsaparang, a capital do reino tibetano de Guge. Andrade foi o primeiro ocidental a visitar o Tecto do Mundo. Outros pioneiros se seguiriam, optando por diferentes rotas que os levariam aos não menos misteriosos reinos do Ladakh, Sikkim, Nepal e Butão. Ao longo de quatro episódios poderemos seguir, passo a passo, a longa jornada de Joaquim Magalhães de Castro, que se inicia em Macau e termina em Agra, a cidade do Taj Mahal. "

Episódios de 21.11.2011 e 27.11.2011       aqui .

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FOTOGRAFIAS:  Tibete 
                            No Tecto do Mundo





Os Biombos Namban, Sophia de Mello Breyner Andresen

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Os biombos Namban contam
A história alegre das navegações
Pasmo de povos de repente
Frente a frente


Alvoroço de quem vê
O tão longe tão ao pé


Laca e leque
Kimono camélia
Perfeição esmero
E o sabor do tempero


Cerimónias mesuras
Nipónicas finuras
Malícia perante
Narigudas figuras
Inchados calções


Enquanto no alto
Das mastreações
Fazem pinos dão saltos
Os ágeis acrobatas
Das navegações


Dançam de alegria
Porque o mundo encontrado


É muito mais belo
Do que o imaginado




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Sophia de Mello Breyner Andresen, Ilhas, 1987.


Pormenor de biombo Namban : o espanto dos japoneses ao verem chegar aqueles estranhos seres pálidos e de grandes narizes, vestindo as sua bombachas ou as roupas negras dos padres jesuítas.

On Japanese Poetry / Da Poesia Japonesa, Eugénio de Andrade

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Those roads that in Japanese poets lead to twilight,
in me lead always to the
dunes. Of course, in the dunes one can surprise the
first light of dawn, as well, but when I get there the
morning is already a youth throwing stones at the
cormorants, unless his target is the clouds – they are
passing so low today. Sometimes I linger and watch
him, but he doesn't see me, his back is turned and
soon he runs into the waves . When he comes out, it
is impossible to separate him from the light, water
and sun disputing his body in rapid shimmerings.
And then he stumbles across my eyes and smiles. For
this unexpected smile, the orient, as well, comes to
my aid with two or three syllables at the edge of
silence.




Esses caminhos que nos poetas japoneses
conduzem ao crepúsculo, em mim levam sempre às
dunas. Naturalmente, também nas dunas se pode surpreender
o primeiro crepúsculo, mas quando eu chego,
a manhã é já um rapaz atirando pedras
aos corvos marinhos, a não ser que sejam as nuvens o seu alvo - andam
tão baixas, hoje. Demoro-me às vezes a olhá- lo,
mas ele não me vê, está de costas e não tardará
a correr para as ondas. Quando regressa, é impossível
separá- lo da luz, água e sol
disputam-lhe o corpo em cintilações
muito rápidas. É então que tropeça nos meus olhos e sorri. Para
este sorriso inesperado também o oriente
vem em meu auxílio com duas ou três sílabas à beira do
silêncio.
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Eugénio de Andrade, The Slopes of a Gaze, Apalachee Press, 1992.
(translated from the Portuguese by Alexis Levitin)
January, 1985

A Espada Japonesa, Mário de Carvalho

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          O frade Góis, o mais antigo manuseador de manuscritos do convento, um dia recebeu uma espada japonesa, afiada e comprida. Foi o último samurai do Japão que lha enviou do leito de morte, lembrado de um encontro aprazível com o frade, quando ele missionava por lá. Era a única coisa valiosa que o samurai possuía, e ao frade a deixou.
          Ao retirar o legado da sua grande caixa de cartão prensado, coberta de estranhos caracteres, perante os olhares curiosos e intrigados da confraria, o frade ficou perplexo. Que fazer com aquela espada? Se ao menos fosse espada cristã antiga, de punho em cruz, poderia ser pregada numa parede, simbolizar o grande sacrifício, rezar homem a ela; mas assim, espada pagã, lisa, funcional de matar só, que fazer com ela?
          Opinaram frades velhos que o objecto passasse a fazer parte do museu do convento. Mas o museu do convento ainda não existia. Era uma arrecadação escura, num vão de escada, em que desde há muito se arrumava numa prateleira uma velha lucerna romana, que ninguém sabia ao certo se era romana, ou imitação de feira.
          Ficou decidido que a espada seria o segundo objecto do museu mas, enquanto este não estivesse constituído e exposto, deveria ser o frade destinatário ser considerado seu depositário fiel.
          Nenhum remédio teve o frade senão convir e lá levou a espada para a cela, onde foi colocada por cima da parca estante de livros e sacros que possuía.
          Mas o aço refulgia. Com o encadeamento mal pôde o frade engrolar as suas orações e variadas vezes teve de rectificar os enganos cometidos.
          Sentado à sua mesa de trabalho, a espada evocava-lhe gritos ferozes, soltares de sangue, baques de corpos, retinires de armas, num alarido bélico que lhe cortava a concentração e desviava o pensamento dos textos sacros.
          E nem as imagens de cavalgadas e confrontos se lhe desvaneceram quando tentou pregar olho na sua humilde enxerga.
          O frade atribuiu toda aquela excitação nocturna à presença perto da espada e, levantando-se de rompante, foi escondê-la entre montes de pergaminhos por decifrar que se acumulavam a um canto da cela.
          Nem assim conseguiu adormecer.
         Daquelas bandas vinha-lhe um rumor de restolhada, um zunir de fender ares que o sobressaltava no tentar domir. De maneira que passou o resto da noite a deambular de um lado para o outro, de canto em canto da cela, escondendo a espada em todos os escaninhos sem resultado, porque ela vinha-lhe sempre ao pensamento, tesa, cortante, zunidora, homicida…
          Durante todo o dia seguinte, o frade arrastou-se pelos claustros, sonolento, sorumbático, soturno, de cabeça baixa do sono, corpo estremecido pelo pensamento de impactes lacerantes.
          Os outros frades passavam por ele e diziam-lhe:
          - Homem, credo, que tem? Faça-lhe jejuns que passa, faça-lhe jejuns…
          E ele fez jejuns, completou com cilícios apertados, cavou forte na horta, sob a vigilância severa do frade hortelão, mas parecia que quanto mais debilitava o corpo, tanto mais as imagens e sons de guerra se lhe tornavam nítidos, vivazes, e sentia, no fundo do peito, romper um brado bélico, as mãos enclavinharem-se, os ombros quase doerem de não sarilharem em rodas de cortar ares e cabeças e corpos.
          As noites que se seguiram foram de diálogo tenso entre o frade e a espada. Tinha-a removido do seu invólucro de papéis velhos e colocado respeitosamente sobre a manta da enxerga. Observava-lhe o brilho, a luminescência que quase ilumivava o quarto, tocava-a com a ponta do dedo, sentia-lhe os vibrares subtis, as exigências ocultas. Não tardou a notar que, em voltas e círculos irregulares e caprichosos, um vermelho reluzia por sobre o gume, quase lançando chispas fulvas sobre o leito. Na noite em que o notou, o padre horrorizou-se e benzeu-se vezes e vezes. Depois, começou a apreciar o halo, a tocá-lo com a ponta dos dedos, a brandir a espada com ambas as mãos, vendo reluzir no escuro as formas arabescas fugazmente desenhadas pelo brilho vermelho a faiscar.
          Um dia, o hortelão veio queixar-se de que todas as couves tinham sido cortadas pelo talo, e exibia molhos de verduras mutiladas. Na manhã seguinte, os frades acordaram tarde porque o sino não tocou. O sineiro, um frade quase anão, mostrava a altos gritos a corda do sino cortada. No ofício do dia seguinte, todos os círios e velas estavam talhados em dois, as chamas deixavam nódoas gordurosas no soalho de lajedo.
          - Alto, que temos Demónio entre nós! – disse o abade, e ordenou que se fizessem procissões pelos claustros, com muitas rezas e queimares de incenso. Enxames de frades exorcizaram competentemente todos os recantos do convento.
          Nessa noite, todas as aves de capoeira tiveram o pescoço cortado.
         Os padres montaram vigilância ao diabo, munidos de água benta e das eficazes orações aprendidas. À cautela, dois deles tiveram à mão grossos cacetes de marmeleiro, para o que viesse.
          Mas nada veio e as coisas aquietaram-se. O convento voltou à normalidade, o sino foi consertado, a capoeira reposta, a horta amanhada, e toda a gente pensou que as procissões tinham tido resultados, embora diferidos. Sossegou o convento e todos os frades passaram a dormir em paz.
          Certa madrugada, o sino voltou a não tocar. Horas altas, ninguém bulia no convento. Todos os frades, excepto um, jaziam nos catres, degolados, num mar de sangue.
          Nessa noite, nos arredores de Tóquio, apareceu, cavalgando, um samurai, de armadura feroz, volteando a espada aos gritos. Ninguém soube de onde veio. Eram, no entanto, as feições, tivesse alguém sido atento, do velho frade Góis, o estudioso de manuscritos.



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Mário de Carvalho, Contos da Sétima Esfera, Editorial Caminho, 1998.

Índia: Baçaím

Índia : Fortaleza de Diu

Macau : Igreja da Madre de Deus

Natal Chinês, Maria Ondina Braga

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          A senhora Tung chegava dois dias antes da consoada. Costumava vê-la logo de manhã, com a irmã jardineira, no pátio maior, a admirar as laranjeiras anãs nos vasos de loiça. Via-a casualmente a contemplar, embevecida, o presépio do convento. Encontrava-a por fim à mesa.

          A senhora Tung viajava todos os anos da Formosa para Macau, na época do Natal, a fim de festejar o nascimento de Cristo na companhia da sua primogénita, a irmã Chen-Mou.

          Nesses dias, com as meninas em férias, o refeitório do colégio parecia maior e mais desconfortável: só eu e Miss Lu nos sentávamos à mesa comprida das professoras. Daí a presença da senhora Tung, que noutra ocasião passaria talvez despercebida (estirada a sala entre pátios de cimento e plantas verdes), se tornar nessa altura notável.

          Baixa, seca de carnes, de olhos atenciosos, pensativos, a senhora Tung sorria constantemente, falava inglês, gostava de comer, de fumar, de jogar ma-jong. As criadas cortejavam-na nos corredores, preparavam-lhe pratos especiais, levavam-lhe chá ao quarto. Além de ser mãe da subdirectora, tinha fama de rica e distribuía moedas de prata a todo o pessoal na noite de festa.

          Nessa noite assistiam três freiras ao nosso jantar (a regra não lhes permitia comer connosco): a directora, a subdirectora e a mestra dos estudos. E muito empertigada, segurando com ambas as mãos um tabuleiro de laca coberto com um pano de seda, a senhora Tung recebia-as à porta do refeitório, entregando cerimoniosamente o presente à filha, que por sua vez o oferecia à directora. Eram bolos de farinha fina de arroz amassada com óleo de sésamo. Toda de vermelho, de sapatos bordados e ganchos de jade no cabelo, a senhora Tung, quando a superiora colocava o tabuleiro dos bolos na mesa, dobrava-se quase até ao chão. Rezava-se, depois. Para lá dos pátios, à porta da cozinha, as criadas espreitavam, curiosas.

          Nem no primeiro, nem no segundo, nem no terceiro Natal que passei em Macau, a senhora Tung era cristã, mas todos os anos se nomeava catecúmena. A seguir ao jantar falava-se nisso. A directora, uma francesa de mãos engelhadas que noutros tempos frequentara a Universidade de Pequim, perguntava em chinês formal quando era o baptizado. Inclinando a cabeça para o peito, a senhora Tung balbuciava, indicando a irmã Chen-Mou. A filha... a filha sabia. Talvez se pudesse chamar cristã pelo espírito, mas o coração atraiçoava-a. O coração continuava apegado a antigas devoções... Todavia, vestira-se de gala para a festividade da meia-noite, tinha no quarto o Menino Jesus cercado de flores, e a alma transbordava-lhe de alegria como se cristã verdadeiramente fosse.

          Com um sorriso meio complacente meio contrariado, a irmã Chen-Mou desconversava, passando a bandeja dos bolos à superiora, que separava uns tantos para o convento. Os restantes comê-los-iamos nós, ao fim da Missa do Galo, com chocolate quente.

          O chocolate era a esperada surpresa da directora. A senhora Tung chamava-lhe, em ar de gracejo, «chá de Paris». No fim das três missas vinham outra vez as três freiras ao refeitório do colégio para trocarem connosco o beijo da paz e nos oferecerem a tigela fumegante do chocolate. Vinham e partiam logo (tarde de mais para se demorarem), e Miss Lu, fanática terceira-franciscana, sempre atenta aos passos das monjas, sorvia à pressa o líquido escaldante, como quem cumprisse um dever, e saía atrás delas.

          Ficávamos, assim, a senhora Tung e eu, uma em frente da outra. À luz das velas olorosas do centro de mesa, os seus olhos eram dois riscos tremulantes. Sorríamos. Finalmente, o reposteiro ao fundo da sala apartava-se. Uma das criadas entrava, silenciosa. Servia-se vinho de arroz.

          Creio que o vinho de arroz figurava entre as bebidas proibidas no colégio e que chegava ali por portas travessas. O certo, contudo, é que ambas o bebíamos, a acompanhar os bolos de sésamo, no grande e deserto refeitório, na noite de Natal.

          O vinho de arroz queimava-me a garganta e fazia-me vir lágrimas aos olhos. Quanto à senhora Tung, saboreava-o devagar, molhando nele o bolo, e, como mal provara o «chá de Paris», bebia dois cálices.

          Entretanto, Aldegundes, a criada macaense mais antiga do colégio, aparecia com as especialidades da terra: aluares, fartes e coscorões, dizendo que aluá era o colchão do Minino Jesus, farte almofada, coscorão lençol. E eu traduzia em inglês para a senhora Tung, que achava isto enternecedor e gratificava a velha generosamente.

          Quando por fim atravessávamos a cerca a caminho de casa, sob uma lua branca, espantada, anunciadora do Inverno para a madrugada, a senhora Tung abria-se em confidências.

          A menina sabia... ― a «menina» era a irmã Chen-Mou, a subdirectora do colégio ―, sabia que ela continuava a venerar a Deusa da Fecundidade. Tratava-se de uma pequena divindade, toda nua e toda de oiro. Fora ela quem lhe dera filhos. Estéril durante sete anos, a senhora Tung recorrera à sua intercessão divina quando o marido já se preparava para receber nova esposa. Não podia portanto deixar de a amar. Toda a felicidade lhe provinha daí, dessa afortunada hora em que a deusa a escutara.

          Parava a meio do largo átrio enluarado, de olhar meditabundo, mãos cruzadas no colo. E as palavras saíam-lhe lentas e soltas, como se falasse sozinha.

... E aquele mistério da virgindade de Nossa Senhora! Virgem e mãe ao mesmo tempo... Não se lia no Génesis: «O homem deixará o pai e a mãe para se unir a sua mulher e os dois serão uma só carne?» Não era essa a lei do Senhor? Porquê então a Mãe de Cristo diferente das outras, num mundo de homens e de mulheres onde o Filho havia de vir pregar o amor? A Deusa da Fecundidade, patrona dos lares, operava milagres, sim, mas racionalmente, atraindo a vontade do homem à da sua companheira e exaltando essa atracção. Como o Céu alagando a Terra na estação própria.

          Retomávamos a marcha em direcção aos nossos aposentos. Difícil para mim responder às dúvidas da senhora Tung, nem ela parecia esperar resposta. Mudava, rápida, de assunto, aludindo ao tempo, à viagem de regresso, às saborosas guloseimas da criada macaísta.

          Já em casa, convidava-me a ir ver o seu presépio. O quarto cheirava fortemente a incenso. Em cima da cómoda, entre flores, lá estava o Menino Jesus, de cabaia de seda encarnada, sapatinhos de veludo preto, feições chinesas.

          Depois, timidamente, a senhora Tung abria a gaveta... e surgia a deusa.

          O Menino Jesus era de marfim. A Deusa da Fecundidade era de oiro. O Menino, de pé, de um palmo de altura, trajando ricamente. A deusa, sentada, pequenina, nua.

          Os olhos da senhora Tung atentavam nos meus, como se à procura de compreensão, mas as suas palavras prontas (a deter as minhas?) eram de autocensura. Não, não devia fazer aquilo. A filha asseverara que o Menino Jesus entristecia, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. E quem sabia mais do que a filha ?

          Eu já sentia frio, apesar da aguardente de arroz. O Inverno, ali, chegava de repente. A senhora Tung, no entanto, tinha as mãos quentes e as faces afogueadas.

          Despedíamo-nos. Eu sempre me apetecia dizer-lhe que estivesse sossegada, que de certeza o Menino Jesus não havia de se entristecer, em cima da cómoda, por causa da deusa, na gaveta. Mas nunca lho disse nos três anos que passei o Natal com ela. Palpitava-me que a senhora Tung se enervava com o assunto. E que, de qualquer jeito, não me acreditaria.


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Maria Ondina Braga, A China Fica ao Lado, Lisboa, Panorama, 1968

rosa de Hiroshima

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Saldos no Vietname, Alexandre O'Neill

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Bombas de esferas:
cachos de bombas nascem de uma só bomba-mãe.
Cada bomba-filha ejecta, à altura do homem,
300 esferas que vão penetrar na carne aos ziguezagues.

Parente deste sanguinário jogo de berlinde
é o jogo das setas: um polegar de tamanho,
aletas que lhes permitem
entrar em parafuso carne dentro,
pontas de arpão,
que torna a sua extracção muito difícil.

(Agora as setas, quando já no corpo
- é um melhoramento! - fragmentam-se.)

Também há projécteis de plástico
não detectáveis pelos raios X;
e a bomba dita de nuvem explosiva.

Quando entra em cena o seu papel é este:
introduzir, primeiro, por escâncaras ou frinchas,
no teatro onde está a actuar,
uma expansiva nuvem de etileno.

Só depois explode: então, o fogo
pega-se ao etileno e ... cai o pano!

E mais uma invenção: as minas-aranhiços,
que desenrolam patas de 6 metros
quando tocam no chão.

Ai de quem tropeçar numa das patas:
nem a mosca da alma terá tempo
de se evolar!

A TV veio também colaborar
com «directos» bem sofisticados:
realizador-bombista, o pessoal-piloto
a um só tempo fabrica e realiza a própria acção
e faz-vê, em grande plano, o seu desfecho.

Outros sinetes deixou o americano
no texto Vietname.
Um dos mais velhos: a incandescente lepra
à procura de pessoa que se chame napalm;
um dos mais novos: a bomba
devoradora de todo o oxigénio
250 metros em derredor
do ponto onde cair.

E onde o americano espera nunca estar.




1975


in A Saca de Orelhas

as aguarelas de Sarawanee Jinayon / the watercolors of Sarawanee Jinayon

                                Guimarães

Sintra

    Alcobaça

     Alentejo




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Sarawanee Jinayon, was born on May 28, 1960, in Bangkok, Thailand.
In 1989, she received her Master’s Degree in the same field from College of Visual and Performing Arts, Northern Illinois University, USA, through the grants from Fulbright and Delta Kappa Gamma International Society. Her fine arts teachers in the US included Professor Gordon J. Dorn and Associate Professor Charles J.Olson

She began her interest in art and enjoyed drawing and making all kinds of art activities at a very young age. She went to the Demonstration School of Srinakarinwirot University and had an opportunity to study art with Suradej Mukkayangkul who played a significant role in her early artistic development. Sarawanee furthered her studies at Chulalongkorn University, Bangkok, receiving a Bachelor’s Degree in Art Education, in 1983. During her studies at Chulalongkorn, her fine art teachers included Professor Somporn Rodbun, Professor Sanya Wong-Aram, and Professor Kamchorn Soonpongsri (National Artist).

Sarawanee had her debut exhibition in 1990, together with well-known artists Itthi Khongkhakul and Praphan Srisouta in Fulbright in Colors Art Exhibition

Since then she has participated in exhibitions including Journey of Discovery : Impressions and Expressions of Thai Artists Visiting Portugal Art Exhibition, in 2005 with Nongnart Chirakiti, Pearl Rojanasena and Uma Debhakum.

Besides her academic training, Sarawanee artistic development has been influenced by works of such artists as August Macke, John Marin, and Elisabeth Peyton.

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Personal Statements



Based on my previously very impressive experiences in Portugal, especially in terms of wonderful friendship firmly established over there, I've strongly felt ever since that Portugal is my second home and our two countries have so much to share and cherish from one another. I treasure most of all, the sense of being committed to do the best for Thailand and Portugal. Besides, my experience in writing a book concerning Portugal, my interest in art, and my present career as an editor-in-chief for a publishing house focusing on children's literature, probably avail me with the opportunity to exchange and share some certain cultural aspects between these two beloved countries, especially in the area of art and Thai-Portuguese children's literature.



Sarawanee Jinayon_____________________
contact : pakvan@loxinfo.co.th

"Gereja Portugis", the Black Portuguese Church in Jakarta


This sunday morning I decided to visit, for the first time, an important building of Jakarta - for its historical and architectural richness: the Gereja Protestan di Indonesia bagian Barat, Jemmat "Sion", or "Gereja Portugis" - as it was once known. This morning i went to the Black Portuguese Church, the protestant church "Sion", in Kota - the historical centre of Jakarta. This is the oldest church in the city and the oldest building in Jakarta which is still used for its original purpose.


I felt very inspired while visiting this place, for many reasons: because on sundays mornings i'm specially sensitive; because this building has to do with the "portuguese" remains in this wide and metropolitan city; because it is a beautiful place - well kept, still shining, a cozy corner; because i was surrounded by peaceful and welcoming people; because I heard wonderful christian chants in indonesian; because it's always moving for me to be in a place where I can breathe history in Jakarta, which is not dirty or ruined, where I find people who care for the place where they are and have consciousness of its importance.

The church was built according to the plans of Ewout Verhagen, from Rotterdam, in 1693, and it was finished in 1695. It became a very fashionable church, though built for the poorer section of the Portuguese speaking population in the then knwon Batavia.

Baroque pulpit, work of H. Bruijin, belongs to the original furniture of the church (1695). On the left, one of the four big chandeliers, made of yellow copper, with reflectors in the force of shields with the coat-of-arms of Batavia. It dates from the end of the 17th century.



The original organ, with its rich carvings, was lent by the daughter of Rev. Maurits Mohr in the 18th century and is now out of use.

Who were these people - the portuguese speaking population of Batavia, in the 17th century?

Before the Dutch appeared in Indonesia (1596), the Portuguese had already established a network of harbour towns controlling the trade between the Spice Islands and Europe. In order to conquer and to mantain its monopoly on spices and other profitable trade, the Dutch East India Company (VOC) attacked the portuguese in the East wherever they had established trading posts, forts or towns, for instance, India, Sri Lanka, Malaya, China, Japan and Mollucas. These Portuguese, who had arrived in Asia a full century before the Dutch founded Batavia (1619), had created a vast population of "Eurasians"...


In 1614 Malacca, once a trade emporium of Portuguese merchants, fell into the hands of the Dutch, as many other ports in India and Ceylon. From these places the Dutch brought many prisoners to Batavia. The "white" Portuguese, especially the reacher ones, settled well inside the walls of the city, in elite quarters of Batavia, and started to have a privileged relation with the dutch elite, but the poorer prisoners and those bought as slaves by the Dutch, lacked the means to live inside the walls - they had portuguese names (inherited from their portuguese godfathers on catholic baptism) but hardly much portuguese blood. Among them were some Malays, but most of them were Bengalis and Ceylonese. The Dutch granted them liberty on condition that they become members of the Dutch Reformed Church. Those who converted and became protestants (almost all), and therefore free from slavery, were called Mardijkers or "the liberated ones".


In spite of changing their confessed religion, the Mardijkers didn't change their language. Thus, in the 17th century and partly also in the 18th century, the most common language in Batavia was a kind of portuguese mixed with many malay words. Some protestant ministers had even to learn portuguese in order to serve this growing community. In fact, portuguese still was the lingua franca to Asia, though Portugal had since long become powerless.


It was for this community, the Black Portuguese Community, that the De Nieuwe Portugeesche Buitenkerk, as it was called in dutch (meaning: "Portuguese church outside the walls") was built for.

And today there I was, not as a white portuguese, but as a Mardijker in hearth, to pay tribute to all those who kept the portuguese language alive for so many years in this remote far east city of the world...

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Sara França


Sources: Ronal Daus, Portuguese Eurasian Communities in Southeast Asia; Adolf Heuken, "Portuguese Remains in Jakarta" in Indonesia - Portugal, Five Hundred Years of Historical Relationship.